Estudo mostra que vídeos falsos sobre paracetamol e autismo dominaram o TikTok
Pesquisa apresentada em congresso de pediatria nos EUA achou que vídeos com informação falsa tiveram mais visualizações que os corretos.

O que a pesquisa encontrou
Uma pesquisadora da Rutgers School of Medicine, nos Estados Unidos, analisou 53 vídeos do TikTok publicados entre setembro e novembro de 2025 sobre o uso de paracetamol (vendido nos EUA sob a marca Tylenol) na gravidez e uma possível relação com autismo. O trabalho foi apresentado no Congresso Nacional da Academia Americana de Pediatria, em San Diego, nos Estados Unidos, entre os dias 2 e 6 de outubro de 2026.
Dos vídeos analisados, 28,3% traziam informação falsa ou sem base científica. Mas esses vídeos, que eram minoria, ficaram com 52,4% de todas as visualizações — cerca de 28,1 milhões no total. Um único vídeo com informação falsa foi responsável, sozinho, por 10,3 milhões de visualizações, ou 36,6% de toda a exposição medida no estudo.
A autora da pesquisa, Shivani Srivastava, resumiu o achado: "mesmo sendo pequena parte do conteúdo, a desinformação ficou com mais da metade das visualizações". O estudo também mostrou que 73,3% dos vídeos com informação falsa foram feitos por influenciadores, pessoas sem formação médica que têm muitos seguidores nas redes sociais. Os profissionais de saúde que apareceram na amostra, por outro lado, publicaram apenas conteúdo alinhado com as evidências científicas.
De onde surgiu essa dúvida
Em setembro de 2025, o governo dos Estados Unidos divulgou comunicados associando o uso de paracetamol durante a gravidez a casos de autismo, o que repercutiu bastante nas redes sociais. Segundo o próprio estudo, essa associação não prova causa: outros fatores, como a febre ou a doença que levou a pessoa a tomar o remédio, podem explicar o resultado observado.
A agência de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) chegou a iniciar um processo para mudar a bula do paracetamol, mas afirmou publicamente que uma relação de causa e efeito com o autismo "não foi estabelecida".
Hospitais demoraram a responder
Outro estudo apresentado no mesmo congresso, conduzido por Jessica Visone e colegas da Rutgers New Jersey Medical School, analisou contas de Instagram de 65 instituições de saúde dos EUA — hospitais infantis, sociedades médicas e departamentos estaduais de saúde — entre 22 de setembro e 15 de novembro de 2025.
Apenas 21,5% delas (14 instituições) publicaram algum conteúdo para esclarecer a população sobre o assunto, e nenhum departamento estadual de saúde respondeu. A publicação mais lenta levou 51 dias para sair depois da declaração do governo americano.
O que isso significa para as famílias
Essa pesquisa foi feita nos Estados Unidos, e aqui no Brasil o paracetamol é vendido com outros nomes de marca. Mas o alerta vale para qualquer família: boatos sobre as causas do autismo circulam bastante nas redes sociais, e quem produz esse tipo de vídeo muitas vezes não tem formação em saúde. Antes de acreditar ou repassar um conteúdo assim, vale a pena checar se quem fala tem formação na área.
Até hoje, a ciência não encontrou uma causa única para o autismo, e não há evidência de que o uso normal de paracetamol na gravidez cause autismo no bebê. Dúvidas sobre remédios durante a gravidez ou amamentação devem ser levadas ao médico, à parteira ou ao farmacêutico — nunca decididas com base em vídeo de rede social.
Famílias que já têm uma pessoa autista em casa também costumam ser alvo de desinformação sobre "causas" e "curas". Informação confiável sobre autismo no Brasil pode ser buscada em canais oficiais, como o site do Ministério da Saúde (gov.br/saude) e os serviços de saúde do SUS.




